A desumanidade que nos assusta mais do que a tragédia
Há momentos em que o silêncio pesa mais do que as palavras. E há outros em que falar se torna um dever.
O que mais me revolta não é apenas a tragédia de um aficionado ter sido colhido enquanto fazia aquilo que mais amava. O que verdadeiramente assusta é a facilidade com que tantas pessoas transformam a dor alheia num espetáculo, numa oportunidade para insultar, ridicularizar ou até celebrar o sofrimento de outro ser humano.
Independentemente da opinião que cada um tenha sobre a tauromaquia, existe um princípio que deveria estar acima de qualquer ideologia ou convicção: a vida humana merece respeito. Sempre.
Uma sociedade mede-se pelos valores que defende nos momentos difíceis. É fácil falar de tolerância quando tudo corre bem. Difícil é demonstrá-la quando estamos perante alguém com quem não concordamos. É precisamente aí que se distingue o caráter das pessoas.
Celebrar a desgraça de alguém porque fazia algo de que não gostamos não é liberdade de expressão. É a banalização da crueldade. É a perda da empatia. É esquecer que, antes de qualquer profissão, paixão ou escolha de vida, existe uma pessoa, uma família, amigos e uma comunidade que sofre.
Vivemos tempos em que as redes sociais deram voz a todos, mas também deram palco ao pior da natureza humana. Escondidos atrás de um ecrã, muitos escrevem aquilo que nunca teriam coragem de dizer frente a frente. Confundem opinião com ataque, liberdade com ofensa e justiça com vingança.
Discordar é legítimo. O que nunca será legítimo é desejar o mal a alguém ou sentir satisfação perante o seu sofrimento. Quando isso acontece, deixamos de discutir ideias e começamos a perder aquilo que nos torna verdadeiramente humanos.
A vida tem uma forma muito própria de nos lembrar que ninguém está imune à dor. Hoje é a tragédia de um aficionado. Amanhã poderá ser a de um familiar, de um amigo ou até a nossa. E nesse dia, todos esperamos encontrar compaixão, não escárnio.
Os valores não existem apenas para serem ensinados às crianças. Existem para serem praticados pelos adultos. Respeito, dignidade e humanidade não podem depender das nossas preferências pessoais. São princípios que devem permanecer inabaláveis, mesmo quando discordamos profundamente das escolhas dos outros.
Uma sociedade que perde a capacidade de respeitar a dor humana é uma sociedade que começa, perigosamente, a perder-se a si própria.
É tempo de refletirmos sobre o mundo que estamos a construir. Um mundo onde a diferença não seja motivo para ódio, onde a tragédia não seja entretenimento e onde a humanidade volte a falar mais alto do que a maldade.
Porque as opiniões dividem-nos. Mas a dignidade deveria unir-nos sempre.
Tomás Carvalho
