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Ao Rei, o seu trono pertence

Crónica da primeira corrida da temporada taurina do Campo Pequeno

“Recordando meus senhores / Os tempos que já lá vão.”

Os versos do “Fado dos Saltimbancos”, na voz de João Ferreira Rosa, ecoam como um convite à memória. À memória de um Campo Pequeno que era muito mais do que uma praça de toiros. Era a “nossa casa”, o lugar onde se cruzaram tradição, identidade e orgulho, e onde a tauromaquia portuguesa se apresentava na sua máxima expressão.

Hoje, é uma realidade diferente que nos toca viver. O Campo Pequeno transformou-se, inovou-se e acompanhou a evolução dos “tempos modernos”. Primeiro, pela “limitação” no número de espetáculos taurinos a realizar nesta praça. Segundo, pela necessidade de reunir elencos condizentes com a importância e o prestígio que o Campo Pequeno sempre representou no panorama taurino nacional.


O regresso do génio

Deu-se início a mais uma temporada taurina no Campo Pequeno. O cartaz anunciava “O Regresso do Génio Morante”. A figura de Morante constituiu o mote para uma noite de toiros “à antiga”. Prova desse facto foi a lotação esgotada quatro dias antes do espetáculo.

Foram lidados toiros e novilhos de várias ganadarias. Para a lide a cavalo, saíram exemplares de Murteira Grave, de boa apresentação e comportamento que cumpriram.

Para a lide apeada, foram lidados dois novilhos de Álvaro Núñez, de escassa apresentação, motivando alguns assobios, e de condição mansa. Já os novilhos de La Cercada, em substituição dos anunciados El Freixo, apresentaram boa nota e distinto comportamento.


António Ribeiro Telles honra o toureio português

Na parte equestre, António Ribeiro Telles honrou o nosso toureio a cavalo à portuguesa. Uma atuação muito interessante, rubricada com selo de “arte marialva”.

Destaque para o terceiro ferro comprido e o segundo ferro curto, ambos de grande nota.

Fermín Bohórquez regressava da sua “reforma” às arenas com uma atuação muito correta, sem grandes alardes de destaque.


Santarém respondeu nas pegas

Nas pegas, o Grupo de Forcados Amadores de Santarém teve uma noite positiva.

Foram caras o cabo Francisco Graciosa, à primeira tentativa, com o grupo coeso a ajudar, e Salvador Ribeiro de Almeida, à segunda tentativa. Na primeira, apesar de ter aguentado dois derrotes durante a viagem, não conseguiu ficar fechado na cara do toiro.


Morante, a arte que não se repete

Na parte apeada, todas as atenções estavam naturalmente centradas em Morante de la Puebla.

Morante constitui uma figura de época. Daquelas que transcendem o tempo. A sua tauromaquia não se limita à execução da técnica; é um permanente ato de criação. Cada faena encerra um significado próprio, uma emoção irrepetível, como se fosse a primeira e a última vez que aquela beleza pudesse existir.

Talvez por isso o próprio Morante tenha dito

“Un buen artista nunca debe de repetir la misma faena.”

A arte, quando é verdadeira, nunca se repete; reinventa-se.

A noite de Morante em Lisboa foi uma autêntica obra de arte. Não foi nada inventado. Foi profundo.

No seu primeiro, lanceou três verónicas com muita arte. Ao quite, as chicuelinas foram executadas com gosto. Na muleta, a faena teve bons momentos diante de um toiro manso e sempre a fugir para tábuas.

No segundo, a obra transcendeu para um nível muito alto.

Pediu para bandarilhar, provocando um burburinho nas bancadas. Nas bandarilhas, destacou-se o segundo par, de muita exposição.

O início de faena foi de alta temperatura, com o toureiro a executar uns ajudados por alto, rematados com um molinete, colocando o público de pé.

Em seguida, a faena desenrolou-se ao som do pasodoble “Flamenco y Solo”, com o toureiro a gosto e a rubricar uma grande obra, composta por séries de derechazos e naturais de muita qualidade.

Foi de escândalo.


A despedida de Tomás Bastos

Tomás Bastos despedia-se do público português antes de tomar a alternativa de matador na próxima sexta-feira, 24 de julho.

O seu toureio levanta algumas dúvidas: até onde poderá chegar e qual o patamar que conseguirá atingir.

As suas faenas careceram de argumentos, mas, ainda assim, conseguiu aos poucos contornar as dificuldades.

Frente ao primeiro, um novilho manso e sem classe, esteve esforçado. Contudo, deveria ter abreviado a faena, face à escassa potabilidade do astado.

No segundo, a atuação foi em crescendo, atingindo o seu epílogo com duas séries de derechazos de grande execução.


Direção da corrida

Dirigiu a corrida a delegada técnica Lara Gregório de Oliveira, assessorada pelo médico veterinário Dr. José Luís Cruz.

O seu critério revelou-se indefinido no que respeita à concessão de música.


Notas finais

No final da corrida, Morante de la Puebla saiu pela Porta Grande do Campo Pequeno perante o delírio dos aficionados presentes.

Realizou-se um minuto de silêncio em memória das vítimas do terramoto da Venezuela.

Antes do início da corrida, foi entregue a Morante de la Puebla a partitura do pasodoble “Maestro Morante de la Puebla”, da autoria do compositor e músico António Labreca, da Banda do Samouco.

Duarte Viegas

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