Crónica da última da temporada no Campo Pequeno
Muita parra e poucos cachos de uva
Escrevo e Penso.
E penso em quê?
Em muitas coisas.
Penso no estado em que está o nosso toureio a cavalo. Penso na pesada e cansativa noite, com uma temperatura acalorada a tornar-se sufocante. É daquelas noites em que o tempo demora a passar.
Penso também no nosso público que vai à “tourada”, no estado de espírito que lhes vai na alma. Sei que não é um público fácil de compreender. Tem uma forma muito própria de estar, de reagir e de viver aquilo que acontece dentro da arena. É um público que ainda está por desmistificar.
Já que estamos na época das vindimas e da apanha de fruta, digamos que os nossos cavaleiros lá conseguiram aproveitar alguns cachos de uva. O restante, esse, ou não estava em condições ou simplesmente não se mostrou capaz de ser colhido.
Resta saber se a uva que foi apanhada tinha sumo suficiente para ser aproveitada.
Os toiros
Os toiros de António Raul Brito Paes foram desiguais em apresentação e comportamento. Alguns toiros estavam escorridos de carnes, outros gordos. Em jogo, o que foi lidado em 2º lugar foi excessivamente premiado com volta ao ganadeiro. Os lidados em 4º e 7º lugar resultaram fáceis, sendo os restantes na tonalidade de manso.
Os cavaleiros
Abriu a noite Ana Batista numa atuação esforçada, com a cavaleira a sentir-se mais a gosto na fase de curtos, diante de um toiro que se adiantava no momento do ferro.
João Moura Caetano sobressaiu uma lide onde predominou os bons recortes artísticos que o cavaleiro possui.
Duarte Pinto rubricou uma atuação regular, contudo faltou algum “sumo” para a atuação romper.
Miguel Moura mostrou estar predisposto e determinado em demonstrar toureio. De saída, a sorte gaiola que apontou foi em plano superior. Da atuação, sobressai os recortes artísticos de qualidade, destacando o 2º ferro curto e o de palmo a encerrar a atuação.
Joaquim Brito Paes teve uma atuação com um caminho indefinido e intermitente.
António Ribeiro Telles mostrou uma atuação consistente dentro da sua linha clássica. Destaque para o 4º ferro curto.
Tristão Ribeiro Telles teve uma atuação assertiva, com destaque para os dois últimos ferros curtos.
O Grupo de Lisboa
A noite foi especial para o grupo de Lisboa. Era o fim de um ciclo e o início de outro.
Pedro Maria Gomes passou o testemunho a Duarte Mira, numa cerimónia marcada pela emotividade e por simbolismo. Nesta data, o grupo pegou os sete toiros em solitário,num ato em que a experiência dos forcados retirados se cruzou com a irreverência e a juventude daqueles que agora começam a escrever a sua história.
Foram caras Gonçalo Maria Gomes à 1º TNT, Pedro Maria Gomes na pega da sua despedida como cabo do grupo à 1º TNT, Duarte Mira como novo cabo do grupo à 2º TNT, Duarte Nascimento à 2º TNT, José Duarte Batista à 2º TNT, Tiago Silva à 4º TNT e a finalizar a noite com uma grande pega Francisco Mira à 1º TNT.
A corrida
Dirigiu a corrida o delegado técnico Ruben Fragoso, assessorado pelo médico veterinário Dr. José Luís Cruz. A corrida fica marcada por falta de critério na concessão de música.
A corrida foi antecedida de um cortejo de gala à antiga portuguesa, uma viagem ao século XVIII, que trouxe à arena a pompa e o cerimonial de outros tempos.
Ao início da corrida, Pedro Maria Gomes foi homenageado pela empresa do Campo Pequeno pela sua trajetória como forcado do grupo de Lisboa. Seguiu-se um minuto de silêncio em memória dos antigos forcados do grupo falecidos, do cavaleiro Frederico Cunha e do forcado e embolador Luís Campino.
Ao intervalo, o padre Vitor Melícias foi homenageado pela União das Misericórdias Portuguesas e pela empresa da Praça, bem como o cavaleiro João Moura Caetano na comemoração dos 20 anos de alternativa.
Na última corrida da temporada, a Praça do Campo Pequeno registou uma lotação de ¾ de entrada.
Duarte Viegas
