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Crónica: Duarte Fernandes protagonizou um “milagre”

A corrida de ontem fez-me lembrar o heterónimo de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, na sua fase mais intimista. Nos primeiros versos do poema Lisbon Revisited (1923) transparece uma atitude de desilusão, revolta e recusa em aceitar tudo aquilo que lhe querem impor. Confesso que foi com esse o estado de espírito com que deixei a praça do Campo Pequeno.

Uma noite de pouco conteúdo, daquelas que deixam a sensação de que se esteve presente, mas pouco houve para recordar. Tudo muito bem espremido, nem sequer dava para um copo de sumo. Se calhar, na melhor das hipóteses, nem para meio copo.

Começando pelo público, por momentos pensei estar em Espanha, numa Corrida de Rejones, com aficionados ecléticos e excêntricos. Foi esse o espírito que se viveu ao longo de todo o espetáculo.

Bem sei que o nosso público é “peculiar” na forma como expressa as suas emoções, pois é um público que “ainda está por educar”, mas isso não pode servir de justificação para tudo.

Os toiros de Maria Guiomar Cortes Moura estavam bem apresentados. De comportamento, revelaram-se mansos, reservados e de meias arrancadas, destonando-se dos restantes o primeiro da noite.

Duarte Fernandes esteve em bom plano na noite do seu doutoramento. Não acusou o peso da responsabilidade nesta data simbólica e viu-se com argumentos para ultrapassar as dificuldades. O toiro da sua alternativa levava o nome de “Triunfador-23” e levou a efeito uma atuação de boa nota, destacando o terceiro ferro curto. Frente ao último, foi teve uma lide correta dentro do seu estilo.

Rui Fernandes, a cumprir a efeméride de 28º aniversário da sua alternativa, rubricou duas atuações corretas, fiéis ao seu conceito de toureio.

A Diego Ventura não se pode negar o seu estatuto de nº1 do toureio a cavalo, mas o que se viu do próprio passou completamente despercebido. Bem diz, o ditado que não se podem “fazer omeletes sem ovos”, mas o que fez nesta noite foi uma mão vazia de conteúdo. Os seus toiros foram a “contra estilo”, mas o rejoneador não procurou outros argumentos para contornar as dificuldades.

Os forcados do Aposento da Moita e de Turlock, da Califórnia, tiveram uma noite com um algum grau de dificuldade em consumar as pegas.

Pelo grupo do Aposento da Moita, foram caras o cabo Luís Canto Moniz à 1ª tentativa, António Lopes Cardoso à 2ª tentativa e André Silva à 1ª tentativa.

Pelo grupo de Turlock, foram caras Morais Rocha à 4ª tentativa e pegado com as ajudas carregadas, Joey Parreira à 1ª tentativa e Fábio Vieira à 1ª tentativa.

Dirigiu a corrida o delegado técnico Ricardo Dias, assessorado pelo médico veterinário Dr. José Luís Cruz. Pouco criterioso na concessão de música. Ao início da corrida, foi guardado minuto de silêncio em memória do antigo forcado e cabo do GFA Montemor, António José Zuzarte.

No final da corrida, Duarte Fernandes saiu em ombros pela porta grande do Campo Pequeno, num ato de triunfalismo.

Retomando ao poema Lisbon Revisited (1923) houve um momento em que vieram à memória as palavras de Álvaro de Campos: “Que mal fiz eu aos deuses todos? Se têm a verdade, guardem-na!”

Duarte Viegas in Porta dos Sustos

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