Em Portalegre, a marca Moura fez-se ouvir a duas vozes
“Os triunfos consagraram,
Um toureiro genial,
E com mestria honraram
O nome de Portugal!”
Se há cinquenta anos, quando se estreou com apenas 16 anos na Monumental de Las Ventas, dissessem ao niño prodigio João Moura que na temporada em que comemora 50 anos de toureio os seus filhos estariam a tourear um mano-a-mano na praça duma das “suas terras”, provavelmente nunca tal coisa lhe passaria pela cabeça. Pois que é verdade, o tão aguardado mano-a-mano entre Moura Jr. e Miguel Moura realizou-se na tarde deste sábado na Praça de Toiros de Portalrgre.
Se não estou em erro, a última vez que os vi acartelados foi na corrida do 15 de agosto em Reguengos há 3 anos, na corrida da família Moura, em que o Tomás fez a sua estreia nas arenas.
E, diga-se em abono da verdade: era quiçá, de todos os mano-a-manos que já se fizeram esta temporada, aquele que mais expetativa me dava.
Goste-se ou não, são dois dos toureiros triunfadores da temporada até ao momento que antecedia esta corrida e fazia falta este encontro dentro de praça. Não que um fosse queimar o outro, nem que a corrida fosse mudar alguma coisa em qualquer das carreiras, mas certamente para os aficionados seria um grande momento.
E assim foi, uma corrida interessante, com um curro de toiros a pedir contas e dois toureiros dispostos a deixar tudo dentro de praça.
De Veiga Teixeira foi o curro de toiros desta tarde. Bem-apresentados e duros quanto ao comportamento. Melhores os dois primeiros, sendo o segundo premiado com o lenço azul. Com mais teclas os lidados de terceiro em diante, sendo o quarto da ordem o mais trabalhoso, com uma declarada crença nos médios e a adiantar-se uma barbaridade para os ferros. Não obstante, em todos eles houve emoção e quando assim é, meio caminho já está feito.
Quanto ao confronto dos irmãos Moura, não será nada fácil encontrar um claro triunfador, sendo indubitável que quem saiu verdadeiramente a vencer foram os aficionados que tiveram o privilégio de assistir ao espetáculo. Foi um mano-a-mano com ritmo, sendo visível, entre a ligação familiar que os une, a vontade de ambos os cavaleiros em apertar um com o outro, numa clara tentativa de se superarem de toiro para toiro para proporcionar uma tarde histórica.
Abriu praça João Moura Jr. que aproveitou a prontidão do primeiro da ordem para lhe dar vantagens e cravar uma boa série de ferros, muito bem rematados. Iniciou a lide com uma poderosa sorte de gaiola. Diante do terceiro, que recebeu sem intervenção dos peões de brega, destaque para o soberbo terceiro curto e para a segunda mourina, que levantou dos assentos os presentes na José Elias Martins. À porta gaiola recebeu Moura Jr. o terceiro do seu lote, um exemplar que esperava no momento do ferro, o que acrescenta em mérito à disposição do toureiro em pisar-lhe os terrenos para, no terceiro ferro curto da série, montando o Jet-Set, ser autor do ferro da corrida.
Miguel Moura abriu a sua passagem por Portalegre com aquela que foi, quanto a mim, a lide mais redonda da corrida. Esteve genial com o toiro, levando-o embebido na barriga do Juventus, templando-lhe a investida e fazendo esquecer que tinha por diante um Teixeira, tal a aparente facilidade com que executou cada ladeio. Público completamente rendido a esta sua atuação. Diante do quarto, a lide ficou marcada pelo esforço em dar a volta ao mais complicado da corrida, fazendo-o com bastante mérito. No que fechou praça, realizou uma atuação a ir a mais, sendo o momento alto o emotivo ladeio, aguentando estoicamente a dura investida do toiro, rematando por dentro com a cravagem de um poderoso ferro de palmo. Recebeu os seus três toiros com emotivas sortes de gaiola.
No final, tourearam o sobrero a duo, numa lide ligada, que resultou complicada pelo facto de o toiro cedo se ter rachado em tábuas. Ainda assim, lide positiva e bastante do agrado do público.
Em suma, no que ao toureio a cavalo diz respeito, foi uma tarde que ficará certamente na memória dos aficionados como uma tarde de bom Toureio, de verdadeira competição entre os irmãos Moura e em que, como não podia deixar de ser, se elevou ao máximo todo o esplendor conquistado pelo Maestro João Moura, havendo em cada lide pormenores do toureio por si praticado ao longo da sua longa carreira.
No capítulo das jaquetas de ramagens, estiveram em praça os Forcados Amadores de Coruche e Portalegre.
Por Coruche, abriu praça António Tomás que viu o primeiro da ordem sair solto, fechou-se com decisão e contou com boa ajuda do grupo para concretizar à primeira tentativa. Devido à córnea fechada do terceiro da ordem, decidiu o grupo de Coruche tentar uma pega de cernelha, por intermédio de Frederico dos Santos Pinto e Luís Gonçalves. Consumaram com mérito à primeira entrada. O cabo João Prates sentiu algumas dificuldades nas primeiras tentativas ao quinto da ordem. Concretizou à terceira tentativa, recusando muito dignamente dar volta, embora a petição do público para que a desse fosse forte. Fecharam a tarde com a pega ao sobrero lidado a duo, numa pega que contou com a presença de elementos de ambos os grupos. Foi forcado de cara Tiago Pata e consumou à quarta tentativa.
Por Portalegre, Daniel Ameixa viu o segundo toiro ensarilhar na primeira tentativa, dificultando o momento da reunião. Consumou com mérito à segunda. O quarto foi pegado por Ricardo Almeida, forcado de referência do grupo que fez a sua despedida das arenas com uma enorme pega. Foi depois homenageado no centro da arena, recebendo fortes ovações do público. O sexto da ordem foi pegado por Filipe Rodrigues que aguentou uma viagem dura e concretizou mais uma grande pega ao primeiro intento.
No início da corrida foi respeitado um minuto de silêncio em memória do forcado Luís Campino, recentemente falecido.
A corrida foi dirigida por Marco Gomes, assessorado pela médico-veterinária Dra. Maria Enes.
Tiago Correia in Porta dos Sustos