Crónica da Primeira Corrida da Temporada Taurina do Campo Pequeno
“Noutro tempo a fidalguia/que deu brado nas toiradas”. Assim começa o fado “Embuçado” de João Ferreira Rosa, numa evocação direta a um tempo em que a tauromaquia era mais do que um espetáculo – era sinónimo de grandeza, de prestígio e de classe. O Campo Pequeno, no coração taurino de Lisboa, foi palco durante décadas, o palco dessa grandeza.
Hoje, é uma realidade diferente a que nos toca viver. Nos tempos que correm, não é nada fácil montar cartéis ao nível, que o Campo Pequeno merece. Primeiro, pela “limitação” no número de espetáculos taurinos a realizar nesta “praça”. Segundo, reunir os intervenientes justificáveis, para esta “praça” tão importante, no panorama taurino nacional.
Deu-se início a mais uma temporada taurina no Campo Pequeno. O cartaz anunciava a comemoração da efeméride de 45 anos de alternativa de uma das máximas figuras do toureio a cavalo nacional, Paulo Caetano. O cartel era especial, pois toureava juntamente com o seu filho, e compartilhava cartel com várias gerações de dinastias.
Após as cortesias, a Casa Real de Bragança, em representação de suas Altezas Reais, os príncipes D. Afonso e D. Dinis e a Infanta Maria Francisca, a APSL, a Associação de Criadores de Raças Seletas, a Empresa e o grupo de Forcados Amadores de Lisboa entregaram ao cavaleiro lembranças da efeméride assinalável.
Foram lidados toiros de Paulo Caetano e António Charrua. O de Paulo Caetano, saído em primeiro lugar, foi nobre e exigente. Os de Charrua estavam homogéneos de apresentação, exceto o segundo comodo de cara, demonstraram pouca transmissão e poder. O último toiro da corrida foi premiado com lenço azul no final da lide.
Abriu a noite, Paulo Caetano numa lide que veio a mais, com destacados pormenores de classe e elegância. A cravagem do último ferro curto foi o destaque.
António Ribeiro Telles também obteve uma lide a mais. De saída, os três compridos que cravou resultaram desluzidos e de pouco critério. Nos curtos, o 4º ferro curto foi de grande nota.
A João Moura Caetano sobressaiu os recortes no remate das sortes, diante de um toiro de pouca força e nula transmissão.
Marcos Bastinhas teve uma atuação com duas fases distintas. Nos compridos, cravou dois ferros de grande nota. Nos curtos, as coisas acabaram por não correr de feição. Faltou entendimento com o toiro. Entre passagens em falso e trocas de montada, a lide mostrou pouca eficiência. Foi concedido volta à arena, e no final demonstrou a sua insatisfação, atirando o tricórnio e um ramo de flores, ao responsável máximo da corrida.
Duarte Pinto com uma atuação modesta, passou despercebido.
Finalizou a noite, Miguel Moura, com uma atuação, que o podia elevar a outro patamar. De saída, apontou dois compridos de forma eficiente, dando vantagens ao toiro a partir. Na série de ferros curtos, demonstrou vontade e sentido de lide.
Nas pegas, os grupos de Montemor e Lisboa demonstraram dificuldades na concretização das pegas.
Pelo Grupo de Montemor, foram caras Vasco Ponce que, após duas tentativas infrutíferas, saiu lesionado. Foi dobrado por António Cecílio, consumou à 2º TNT com as ajudas carregadas. José Maria Pena Monteiro à 2º TNT. Fechou a atuação o cabo José Maria Pena Monteiro à 1º TNT numa boa pega.
Pelo Grupo de Lisboa, todas as pegas foram consumadas à 2º TNT. Foram caras, Nuno Fitas, Duarte Mira e João Varanda.
Dirigiu a corrida o delegado técnico Ricardo Dias, assessorado pelo médico veterinário Dr. Jorge Moreira da Silva.
O “inteligente”, tem de pautar por um critério uniforme. No cargo que ocupa, demonstrou falta de coerência, conhecimento e algum rigor . A “pressão” do público, por si só, não deve ser pretexto para todas as concessões. Na dita Catedral do Toureiro a Cavalo, tem de ter outro propósito, quanto à sua regência.
A Praça preencheu cerca de ¾ de casa. Uma lotação aquém do esperado.
Antes do início da corrida, foi guardado um minuto de silêncio em memória do rejoneador Rafael Peralta, falecido na passado dia 4 de Julho.
Duarte Viegas